segunda-feira, 15 de junho de 2020

FESTA DO RINCÃO

Certa vez, me enfiei numa roda de trota
Cada cabra de afino de cantoria, de trová
Uma coisa aqui e ali, a gente cata, olhe lá
Neste dia de sorte boa os da nata tava lá

Veja só, quem farolava igualmente criava
Um dizia sobre as passarada na revoada
Outro seguia logo na carriola e se deitava
Assim um passava pro outro, sem trupicá

Cada vez mais chegava gente pra olhá
Vinha de toda parte, de todo geito e modo
Vê os troveiro e ouvi suas cantoria tinindo
Que coisa linda foi observá essa proeza

Entre os da peneira, tava uns troveiro bão
Uns tropeiro, outros boiadeiro, e mascate
Violeiro de montão, a cavalo ou carroça
Tinha senhorio junto com servo, e caipira

Me lembro das figura que ali havia
Tudo da redondeza, mas tinha de longe
Povo criado e vivido na roça, na lida
Uns se deram bem, outros, dureza e fome

Tinha uma tripa de zé, e não parava mais
Zé das trova, zé tropeiro, zé festeiro
Zé pilantra, zé da quitanda, zé bombeiro
Zé formigueiro, zé gamela, fumê, futrico

Zé carpinteiro, zé das prova, zé da cova
Zé pilão, zé bedeu, zé fiado, zé tropeiro
Zé tiririca, zé galinha, zé cachaça,
Zé funico, zé troteiro, o fumico, e o leitao

Nome de firma, pouco valia e se conhecia
Era assim pelo apelido que o povo sabia
Se alguém perguntasse pelo Senhor Faria
Logo alguém dizia: Num sei desse não!

Nas temporada de fartura, festa de bailá
Era de arrepiá no povoado, a lambança
Viola e cantoria, bebida e comida farta
Reclamá, só de acabá, pará, vamo não

Um tempão passou, regalia de tudo tinha
Mas veio a seca forte, e matou a terra
Então só ficou na lembrança a boa vida
Depois a segunda guerra, pra nunca mais

Me lembro como hoje, dos dia de leveza
Dos "zé", do rincão, dos de pé no chão
Das prosa e das trova de alegrá coração
Saudade fica, das nossa festa do rincão

Nilma Da Silva Coimbra
- Conto poesia - histórias de antigos tropeiros e troveiros caipiras - SP
- Linguagem caipira

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